quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O papel diário das mães de bailarinos: relativizando posições e expectativas

No meu aprendizado contínuo (e sem fim!) com a dança confirmei nos pais a figura indispensável de apoio e suporte. Principalmente as mães cumprem um papel fundamental. Sem elas quantos(as) bailarinos(as) não teriam sido descobertos(as)? Dedico este trecho principalmente a ela, mas implico também os pais nesta maravilhosa jornada dos(as) pequenos(as).

Inicio apontando a importância de começar o processo de compreender a individualidade de seu(sua) filho(a), com possibilidades e limitações próprias deste(a). Não cabe aqui passar pendências profissionais para as pequenas. Compreender que elas tem o seu tempo particular para brilhar é imprescindível. Outra tarefa árdua, mas necessária: aprender a separar suas ansiedades, pensamentos e expectativas revividas pelas suas experiências com a dança e a vivência distinta de seu(sua) filho(a). Quando isto não está claro eles(elas) percebem uma expectativa desproporcional dos pais ou mesmo a decepção por premiação abaixo do esperado. Obviamente a mãe do(a) bailarino(a) também experimenta grande ansiedade gerada por diversos fatores: incerteza, sintonia com os sentimentos do(a) filho(a), não ter domínio sobre a apresentação, etc. É preciso que a mãe aceite a incerteza sobre o que ocorre com o(a) filho(a), estando ali para auxiliar no que for possível, mas sem criar uma redoma sobre a criança motivado pela incerteza.

À mãe cabe a felicidade por todas as conquistas e o incentivo positivo para que o(a) pequeno(a) conquiste ainda mais. Isto cabe também para as mães que não apreciam tanto a dança e até admitem que gostariam de outras realizações para os(a) filhos(a). Isto pode, é claro, ser verdade, mas incentivar os sonhos dos(as) pequenos(as) é necessário, pois o que eles(elas) aprendem é que os pais apreciam e reconhecem todas as individualidades dele(a), mesmo aquelas atividades que não prestigiam tanto.

A mãe do(a) bailarino(a) é aquela que não só permite seus sonhos acontecerem, mas luta por eles com todas as suas forças. Na minha experiência profissional aprendi uma coisa rapidamente: ser mãe de bailarino(a) não é fácil, mas é gratificante. Ver o(a) bailarino(a) dançar emociona todas as mães. Mas esta também precisa estar sempre aprendendo novas habilidades: ela está continuamente aprendendo a ser mãe de bailarino(a). A habilidade principal é disponibilidade: para aprender, para se envolver, para abraçar quando não souber o que dizer, enfim: é o “estar presente” mesmo nos tempos mais difíceis. O segundo, uma habilidade não rara e muito simples: desejar que eles(elas) alcancem seus sonhos.  Por fim: saber lidar com situações frustrantes: esta é uma habilidade importantíssima.

Algumas mães preferem fugir destas situações, acreditando que assim, estará protegendo os filhos. Elas se enganam. Situações frustrantes são inerentes à vida. Ao invés de fugir, devemos aprender a lidar com estas situações. Para lidar com a frustração há diversas maneiras, mas algumas são menos adaptativas e construtivas. Ou seja, quando a mãe utiliza-se da negação - por exemplo: “o resultado não foi justo, você estava muito melhor”, “a coreografia é que não estava tão boa quanto a de fulano, se não você teria ganho”, etc. – o(a) bailarino(a) não aprende nada com a sua experiência, ou melhor, aprende a responsabilizar o outro, e a nunca procurar compreender o que poderia fazer, afinal, de diferente.

Portanto, a melhor forma de lidar com a frustração é incentivá-lo(a) e ajudá-lo(a) a encontrar saídas para que ele(ela) atinja seus objetivos. No dia da premiação ele precisa estar seguro de seu valor, portanto, parabenizar, independente do resultado é importantíssimo. Lembremos que a premiação é apenas uma das motivações: parabenizar pela sua performance, pela sua coragem, pela sua independência, ou até mesmo quando houver alguma interferência: já vi apresentações em que uma das sapatilhas de ponta da bailarina saiu e ela continuou dançando. No fim sua mãe a parabenizou por não ter se deixado abalar e ter dançado até o fim com um sorriso no rosto. Desta maneira, a menina está segura quanto a seu valor – aprende a sempre procurar um aprendizado positivo – e afinal fazer uma mudança objetiva – costurar um novo elástico na sapatilha! 

Maria  Cristina Lopes é psicóloga e idealizadora da página Ballet sem estresse. Ajuda bailarinos a dançarem melhor e com mais motivação e professores de dança a otimizarem suas aulas. Realiza consultoria para escolas e companhias de dança além de atender bailarinos em sua clínica no Rio de Janeiro.


Maria Cristina Lopes
Psicóloga da dança 
CRP 5/47829

+55 21 993053432 

2 comentários:

  1. Olá Maria Cristina,

    esse post foi como uma luva no meio da minha cara... rsrsrs

    Fui bailarina por 8 anos, e por motivos diversos tive que abandonar o ballet...
    Namorei, casei e tive uma filha. hoje ela tem 2 anos e pelo visto herdou o talento e a paixão pelo ballet da mamãe dela...

    Pois bem, na escola dela tem uma amiga minha que dá aula de ballet...
    Resumindo, vai ter um espetáculo no teatro da cidade e minha pequena princesa bailarina foi selecionada para dançar....
    A questão é que, eu na minha seca de vê-la brilhar, estava sufocando demais o meu bebê... estava jogando em cima dela uma responsabilidade que na verdade não existe. Estava cobrando demais da minha pequena...
    Mas agora tudo ficou muito claro... Virei fã do blog!!
    Parabéns!!

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  2. Boa noite Carol!

    Fico muito feliz em saber que este artigo te ajudou. Sua filha deve ser linda! Continue incentivando. Tenho certeza que você é uma mãe maravilhosa. Pois poder refletir e modificar em nome do amor e cuidado com a sua filhota já dizem tudo.
    Um beijo!

    Maria Cristina Lopes

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